Quem sou eu

Bru.no: (nominativo masculino singular de primeira declinação) do latim, aquele que só arruma confusão.

sábado, 26 de abril de 2025

Ver a noite nas coisas

A noite desceu. Que noite!

Já não enxergo meus irmãos. 

E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.


Vê agora a importância que a noite tem nas coisas? Consegue sentir agora como ela te afeta? As estrelas já não iluminam tanto, embora essa lua em câncer tenha seu brilho. Radical, mexe com a psique dos homens de um jeito, mexe com a das mulheres de outro. Como fico eu, que não sou nem um e nem outro?

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto...


Pálido de espanto me demoro, bebo a luz da lua que acalma e também incendeia. Entende agora como isso funciona? Certo não ouviu o que a noite te diz ainda. Uivos, lamúrias, gemidos e silêncios gritantes estupidamente projetados – o som da noite te chama.

Quando anoitece por aqui

E as gotas remanescentes de chuva

Começam a cair dos galhos

Eu me lembro com mais força daquele dia

Aquele em que choveu o céu sob nossas cabeças

E eu te protegi sob o meu abraço

Mesmo menor, mesmo mais fraco.

Eu sequei tuas lágrimas

Enquanto te aquecia com meu coração.


Chove, chove, chove e eu mais uma vez te pergunto: entende o que estamos fazendo aqui? Noite dia, yin yang, doze horas fatais que marcam a metade, o ponto de encontro da penumbra com a claridade. Assinaturas, rasgos, rasuras, danos críticos, já não sei ao certo o que faço. Procuro incessantemente essa luz que escapa e, sem nunca conseguir, te faço sombra.


Quero você aqui enquanto minha própria natureza permitir, e então amanhã, ou quarta, ou daqui um mês, quando a lua me acordar durante a noite e eu perceber que você já não é mais o mesmo (e nem eu, por ventura) te dar um beijo e sumir. Quero me permitir virar um emaranhado de pensamentos na tua cabeça, e que você fique confuso entre beijos e flechas e desenhos animados. Fique confuso sobre quem eu fui de verdade enquanto dormi com você.


É idiota então te dizer que o que te falta é poesia? Sussurro teu nome em névoa e a escuridão te personifica. Vira e mexe anda pela casa, fala sobre o seu dia enquanto lavo a louça, dança tango comigo pela sala enquanto procura uma taça de vinho. Te imploro! Veja a noite nas coisas, sinta o quanto ela te transforma. Espero ansioso pela tua resposta.


Alta noite, lua quieta,

muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta

não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.

O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,

não necessita de sono.

Andar...Perder o seu passo

na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,

nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente

Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,

anda por andar - somente.

Não necessita de nada.


O que é exatamente meu, o que é exatamente teu? Possuir já não faz sentido, estamos todos tocados, trocados, malditos. Involuntariamente protegidos, porque a noite, embora mãe, também castiga os aflitos.


A noite anoiteceu tudo...

O mundo não tem remédio...

Os suicidas tinham razão...


Beijar porque era momento, porque nossas almas estavam condenadas desde o nascimento e o beijo nos concedia a redenção. Vê agora como doeu essa separação? Da mistura que fomos, já não diviso onde começo e onde você termina. Partes malformadas, iluminadas pela vergonha de ser. Pra que noite tua droga te leva? Em que escuridão teu álibi se encerra? Já sinto a tua noite morrer.


7º andar, o sol quase nascendo

e tudo aquietava

e tudo acendia

e eu sentia

por deus - eu sentia

que meu corpo

escorria pela varanda

escorria como se derretesse

e ah! eu juro

derretia.


destituído de mim pingava

um plic-plac absurdo

forte rítmico surdo

mesmo

e sentia

sentia que derretia

como se fosse nada

como se fosse tudo

porque tudo aquietava

porque tudo acendia.



Já chega, eu sinto que amanhecemos. Cada vez mais dia e menos noite, entendo tua ânsia de partir. Preservo tua memória tal qual Caixa de Pandora e evito lançar novamente todas as mazelas no mundo. Noites permeadas de pensamentos, pontinhos de solidão num mar revolto de indagações. Onde foi parar o marinheiro?


Havemos de amanhecer.

O mundo se tinge com as tintas da antemanhã

E o sangue que escorre é doce, de tão necessário

Para colorir tuas pálidas faces aurora.


Amanhecemos, findamos, já sinto que podemos dormir.


quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Mudanças

Foi dormir pensando mais uma vez em como tudo poderia ter sido diferente, se soubesse antes o que sabe hoje. Pensando em todas as oportunidades que poderia ter de corrigir velhos erros, de reinventar a si mesmo. Em chances novas com velhas pessoas que hoje não passavam de estranhos. Pensava, claro, em todas as coisas e pessoas que tinha hoje, mas estava convicto em sua imaginação que conseguiria chegar no mesmo lugar, sem as partes ruins. Colocou a cabeça no travesseiro e dormiu pensando em todas as primeiras experiências que teve nos últimos dez anos, e como seria bom tê-las novamente.

Quando acordou, percebeu que estava em um ônibus. Um pouco desconfortável, parecia que viajava há horas, esticou-se no seu lugar e absorveu o ambiente. Sua irmã estava ao seu lado, sua mãe do outro, depois do minúsculo corredor. Percebeu como as duas estavam jovens: a primeira vários quilos mais magra, a pele mais queimada do sol impiedoso de uma cidade do oeste paranaense, as sardas mais proeminentes. A segunda dormia tranquila: uma manta vermelho-brega cobria seu corpo e segurava uma mochila no colo como se sua vida dependesse disso. Talvez dependesse.

Olhou para janela, por cima da irmã que ainda dormia, e viu que a estrada aos poucos se fechava em uma ponte. Havia muita água em seguida, era a sua segunda primeira vez vendo o mar! Embora desejasse muito, percebeu que a sensação não era a mesma da primeira primeira vez. Tentava ao máximo possível se agarrar àquela sensação primeira, mas ela se esvaía como areia na mão. Um pouco frustrado, fixou-se no próprio reflexo pálido na janela embaçada.

O primeiro pensamento que teve foi sobre como a camisa que usava era feia. Jesus, teria queimado se a tivesse ainda hoje (ou daqui a dez anos). Em seguida, reparou nas feições do rosto e como estavam diferentes. A pele parecia mais macia, as olheiras estavam menos pronunciadas, o rosto mais fino e sem um pelo de barba. O cabelo tinha um corte diferente, a orelha nunca tinha sido furada. Olhou para os braços e comprovou a inexistência das tatuagens que gostava tanto, e que levara tanto tempo para sequer considerar fazer uma.

Foi acordado dos seus devaneios pela voz do motorista que avisava que já eram 8h30 da manhã de um bonito dia de verão. Fazia 30ºC e daria praia. O letreiro na saída dizia que o ano era 2010. Percebeu que a mãe e a irmã também acordavam, ambas como uma cara de sono terrível, mas igualmente empolgadas em chegar. Ainda um pouco confuso, levantou-se e ajudou as duas a pegarem as coisas que traziam no maleiro. Desceu pensando nos 14 pares de óculos que tinha em casa quando dormiu e agora não tinha nenhum. Faziam falta. 

Saiu do ônibus agradecendo o motorista e esperando as malas do compartimento inferior, lembrando-se rapidamente que traziam vinte e sete caixas na mudança - pagaram taxa extra por isso. Lembrou-se de como tinha sentido vergonha ao chegar na rodoviária de uma cidade nova para uma vida nova e trazendo uma bagagem tão velha. Vergonha da mãe que parecia não entender como a vida de um adolescente poderia ser prejudicada ao ser visto naquela situação por pessoas que não o conheciam. Pensou que agora não teria a vergonha da primeira vez, já que já tinha vivido isso antes - assim como ver o mar. Mas teve vergonha de novo como se fosse a primeira vez.

Enquanto a mãe sumia por dentro da rodoviária, buscando um carrinho que pudesse levar toda aquela bagagem, ficou de olho nas caixas e na irmã. De uma distância confortável, de uma forma que poderia proteger os cacarecos todos se precisasse, mas sem anunciar a todos que passavam que sim, eram seus. Como se as roupas interioranas e o corte de cabelo de jeca não denunciasse a posse na hora.

Ainda esperando a mãe, começou a ter lembranças do futuro. 

Lembrou-se das quatro primeiras casas em que morarão. Do primeiro emprego com carteira assinada que terá. Das caminhadas noturnas pela praia. Do cursinho pré-vestibular que fará mais uma vez, da graduação e dos amigos que conhecerá lá. Das ressacas que suportará até aprender a beber. Como numa foto montagem, lembrou de todos os amores que um dia teria, fixando-se no último com saudade. Lembrou-se dos seus gatos que o esperarão todos os dias quando saísse para trabalhar. Lembrou das escolas e dos alunos que terá, da aula que já tinha preparado para o dia seguinte. Lembrou dos pratos que um dia gostará de cozinhar e de tantas coisas que assistirá na tevê e que agora precisava esperar que fossem lançadas.

A mãe voltava com o carrinho e com o novo padrasto que tinha tirado o dia de folga para buscá-los. Enquanto ajudava a arrumar as caixas o mais rápido possível (para sair de lá o mais rápido possível), pensou como não lembrava de nenhum número da mega-sena, já que nunca jogava. Consolou-se ao pensar que sabia muito sobre o futuro: poderia fazer investimentos em negócios que sabia que tinham dado certo. Poderia entrar em outra graduação, preferencialmente algum emprego que pagasse melhor.

À medida que saíam da área de embarque, os pensamentos e as lembranças começaram a se confundir. Olhou para a irmã e lembrou que tinham brigado, mas não sabia por que. Olhou para o padrasto e sentiu uma raiva que parecia deslocada, depois de tanto tempo. Olhou para a mãe e a imagem dela careca em um hospital teimava em aparecer em sua mente, embora não soubesse ao certo a circunstância. Não conseguia lembrar de mais nada.

Num suspiro, percebeu que não valia a pena se estressar pelo que um dia foi e agora não seria mais. Levantou a cabeça e sorriu, pensando no futuro bonito que poderia ter na cidade nova, mesmo que cometesse alguns velhos erros. Marchou feliz em direção ao estacionamento da rodoviária e foi atropelado por um Gran Siena amarelo-táxi. Sua última memória sobre o futuro foi que a Uber só chegaria no Brasil em 2014.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Conversa

 

    Na volta para casa ele continuava falando. Falou pela manhã, quando acordou, falou durante a tarde por mensagens de via única. Falou quando chegou, final da tarde, depois do lanche e antes da academia. Falou também durante o jantar, enquanto comia as batatas que eu deixava de lado. Não falou no cinema, afinal é um homem educado, mas falou em dobro na volta. Falou sobre o filme, sobre a vida, sobre o dia dele. Falou sobre viagens que planejava sozinho, sobre percepções do filme que teve sozinho, sobre como era bom voltar junto.

    Continuava falando quando chegamos na rua, no prédio, cumprimentamos o porteiro, abrimos as portas. Falava enquanto se olhava no espelho do elevador, agora tão magro e esbelto e autocentrado e mais confiante e o cabelo como está bonito e a pele como está boa e todas essas coisas sobre ele que ele falava já há tanto tempo e que não deixava espaço pra outrem. Falava ainda, quando marchou direto para a sacada para fumar umdoistrês cigarros e beber umaduastrês taças de vinho antes de dormir. Falava enquanto eu alimentava os gatos, limpava as caixinhas de areia, tirava a roupa pesada do corpo. Falava mais quando entrei pro banho e a fala virou ruído branco, entre as paredes brancas e o teto branco e o shampoo branco. Falava enquanto minha cabeça rodava, o box pequeno quebrava e água ia para todos os lados. Falava enquanto eu caía, enquanto o sangue ralo escorria pelos azulejos e formava um fio que passava por debaixo da porta. Falava e não ouvia o pedido de socorro que vinha de dias. Não conseguia prestar atenção em mais nada enquanto falava.

sábado, 11 de abril de 2020

10 de abril de 2020


Página em branco, garota, estamos aqui de novo. Sem subterfúgios dessa vez, só nós dois. Talvez um quarto vazio, algumas teias de aranha nos cantos e um pouco de poeira pelo chão. A janela tá quebrada, acho que sempre esteve, mas ainda funciona de alguma forma. Dá pra sentir cheiro de panquecas vindo lá de fora e talvez algumas reclamações por barulho. No mais, a casa está bem silenciosa – acho que tem estado bem silenciosa nos últimos dias.
Pensa num espelho, bem grande. Ocupa quase um lado inteiro do quarto e tá um pouco sujo, desgastado nas pontas, quebrado no canto superior esquerdo bem do lado da mancha que parece a cabeça da Manoela. O jogo é o seguinte: você faz alguma coisa, um movimento, um sorriso, uma dança, uma crise eu tento repetir de dentro do espelho e vice-versa. Parece um pouco caótico, sem dúvida vai rolar um paradoxo muito louco, mas tenho fé que vai funcionar.
Agora do teu lado eu vejo um primeiro oi (ok, essa é fácil); tem um monte de gente aqui, a gente tá tão excitado por começar a faculdade e eu senti que a gente sobrou um pouco. Os amigos são ruidosos demais, interessantes demais, felizes demais e eu sentia que a gente tava meio perdido. Mas não durou muito, você mostrou o caminho aqui eu mostrei o caminho ali e a gente se perdeu, inevitável, mas nunca estivemos tão certos.
Beleza, agora você tá se maquiando, nós vamos sair. Jesus, eu nunca bebi, eu não sei não sabia talvez ainda não saiba beber, mas e daí? Estamos juntos, estamos ansiosos e estamos prontos pra nos estragar. Percebo um esforço seu tão grande e eu não consigo acompanhar, me perdoa. Eu aprendi muito com você nesses dias, mas só fui me tocar depois de muito tempo, depois Dela, depois Dele, depois do turbilhão todo. Você estava lá e continuamos, apesar do que tenha sido. Noites viradas, roupas novas, bêbados chorando o tempo todo, muitos beijos rolando em muita gente, grupos de pessoas, festas de aniversário na praia, sapatões maldosas, viados talvez insensíveis demais, o mapa do teu coração na minha mão. A gente cresce, não parece, mas são uns sete anos agora. Eu nem sei onde foi parar esses anos todos.
Vamos lá, terceiro ato: você esfrega os olhos, alguma coisa machuca, o vestido rasgou, deus eu queria um ombro agora. Não consigo acompanhar, sempre achei suas crises piores do que as minhas. Deve ser por isso que sempre te achei mais forte do que eu. Hoje percebo como suicídio aos 25 sempre foi uma promessa do que não fazer, e não o óbvio. Talvez um pouco de drama, mas nunca fez mal pra ninguém. Misericórdia quantas jurupingas foram bebidas nesse terceiro ato. Juro que quando lembro do gosto, meus dedos do pé encolhem e o gosto não é ruim, não mesmo. Mas eu lembro dos porres e olha, não foram bonitos. Lembro de ter escrito um poema sobre a queda (ok, foi pra algum macho que eu lembro o nome e o gosto da boca, mas não vem ao caso) e meio que funcionou também pro que a gente tava sentindo. Foi nesse terceiro ato também que eu mais escrevi, e escrevi muita coisa pra você. Espero do fundo do coração que tenha servido pra alguma coisa – você sempre foi minha maior fã e não sei se expressei gratidão o suficiente.
De repente eu vejo você indo pro canto do quarto, mais pra onde tá borrado. Não consigo ver direito, atrás de uma sombra e imagino que você também não consiga me ver. Não sei quem foi pro canto primeiro, na verdade, e não sei quem repetiu o movimento, não importa. Tanto na cabeça, parecia que a gente tinha acordado. Do nada a faculdade começou a bater com mais força, do nada a família começou a cobrar mais, do nada as coisas tomaram outras proporções. Mas eu sentia tanto orgulho de te ver borrada ali pelo canto do espelho. Apesar de todos os pesares, crises e problemas, você tava vivendo. Você conheceu um monte de gente nova e entrou num processo de autoconhecimento que confesso, me assustou. Você mudou, já não era a Taylor Swift de quinze anos de quando a gente tinha se conhecido. Tava numa mutação sapatão, funk e o caralho e olha, crescida. Eu ainda via, vejo, a Taylor Swift de quinze anos insegura e triste quando me procura pra desabafar e eu vejo que a gente ainda tá ali, vai estar deus sabe até quando.
No último movimento eu tenho certeza que começo. Te abraço bem forte, do jeito que eu consigo. Tá amanhecendo, um doido bêbado pergunta se a gente quer tirar uma foto assim, na beira da lagoa, já que somos um casal tão lindo. A gente e olha, ri um pouco, estamos cansados de virar a noite e só agradece dizendo que não precisa. Acho que a crise que veio depois disso foi minha, mas posso te pedir pra parar nesse momento? O céu tá se iluminando, a gente escuta um pouco de movimento na rua e tudo parece tão melancólico e tão certo que eu não quero continuar. Três meses se passaram, estamos naquela grama ainda, naquele mesmo minuto e então é teu aniversário. Quem diria?
Quero te desejar toda a alegria do mundo, toda a melancolia também, desde que tenha álcool. Quero te lembrar que embora atrasado sempre, além sempre, eu me importo muito e eu te amo muito. Você é a primeira pessoa que vem na minha mente quando eu penso em casa, quando eu preciso ser uma garotinha de quinze anos. Você é a melhor pessoa da minha vida e dona de 51% do meu coração. Te amo com tudo.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Despedidas.

Eu queria ser enterrado vivo
Nas covinhas do teu rosto,
À sete palmos profundos
Na imensidão do teu sorriso barbado.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020


O sol quase raiando e a aquela espera interminável de algo que não sabia ao certo se viria. Já estivemos aqui antes, pensou assustada. Já te esperei outras vezes nesse mesmo banco, embora a memória teimasse em escapar sempre que parecia lembrar do rosto dele, como se alguma força maior estivesse brincando de gato e rato com ela. Não sabia exatamente que horas eram, mas sabia que estava muito próximo do fim de alguma coisa importante que não devia ser deixada para trás. No mar que se estendia a frente, calmaria. Não era possível detectar o ponto de colisão entre o céu e o mar, tudo estava tão escuro! Ela estava escura, iluminada apenas pelo cigarro aceso entre os lábios – quase um vagalume, era certo. Num olhar de relance sobre o corpo, percebeu que vestia inteiramente branco, muito embora não usasse roupa alguma.  Pensou no que tinha depois da água.
Um pigarro a assustou. Vinha de muito perto e ao mesmo tempo muito longe, meio que como uma voz conhecida que ecoa de algum lugar e nos enche de um surto de saudosismo fanático. Fechou os olhos e entendeu que ela estava do seu lado: a Outra (pois claramente era uma mulher) tinha vindo de muito longe e se mostrava cansada, era velha tão velha meu deus, existia desde que o mundo surgiu. Usava branco também, da cabeça a ponta da saia, mas trazia os pés descalços. Fumava um cigarro longo de palha, parecia nunca ter fim e não tinha mesmo. Bebia de uma garrafa escura que não era nunca possível atestar a quantidade e, embora tivesse pouco, nunca acabava. A Outra sentou. A perna direita batia sempre no chão, parecia querer provar que existia e pediu senta aqui e a primeira sentou. Pensou no que tinha depois da água, depois do escuro.
Era bem capaz que o círculo que se formou ao seu redor não fosse fruto de sua imaginação, previa. Vultos muito claros rodavam em volta, não sabia ao certo a direção: as vezes direita, as vezes esquerda. As vezes muito grandes, as vezes pequeninos. Algumas vezes tinham uma noção muito clara de estar fora do círculo, outras pareciam estar dentro dela. Radiavam luz, iluminavam o chão e as árvores e a maré que rebentava. Então a Outra pigarreou mais uma vez.
Olhando para frente, percebia que a Outra também era muito clara, radiante de uma melancolia que confortava, inspirava paz. Guiada por ela, colocou as duas mãos nas pernas da Outra, abertas para cima. A mão esquerda sobre a perna direita esquentou muito, parecia que havia fogo embaixo. Quase podia sentir o cheiro da carne queimando. Perdida em divagações, demorou uns instantes pra perceber que a velha falava novamente. Uma fala baixa e cheia de quem já viveu muito, de quem um dia já carregou o mundo todo nas costas. Quem era Atlas perto dessa mulher? Um pouco impaciente, a velha repetiu a pergunta pela terceira vez: “cê tá ouvindo o mar?”
A Primeira estava ouvindo sim. Abriu a boca pra responder e percebeu que não conseguia, já não podia mais. Mas ouvia, sim, o mar cantando, chamando, implorando. Uma voz de mãe, calma como um lago, poderosa como um rio. De repente sentiu que todos os seus barcos estavam atracados ali. Imaginava o que teria depois da água, depois do escuro, depois da velha ao lado.
            A Outra pigarreou de novo, indicou com a cabeça pra outra direção. Do outro lado tinham mais 4 dela e fazia sentido. Nunca tinha sido mais do que cinco, entretanto nunca fora menos do que uma. Todas as quatro estavam ali, também estavam perdidas. O eco do oceano chamava a todas, convidava a conhecer mais de perto.
            A Velha pigarreou pela última vez. A perna já não batia mais no chão e o cigarro tinha apagado. Entregou uma rosa branca para a Primeira e disse pra não ter medo. Iansã mexia nas folhas das árvores com uma suavidade enorme e a mãe chamava, sempre chamou, desde que nasceu, como não tinha escutado antes? Pisou no mar e tudo fez sentido: toda dor, todo riso, toda perda, cada filho que tinha ido. Pensou no que teria depois da água, depois do escuro, depois da velha, depois das cinco partes dela.
            Olhou para trás e não tinha mais nada. Achou que tivesse vislumbrado um negro forte e bonito montado num arco-íris, mas talvez estivesse alucinando. Vezenquando a mente prega peças na gente. Entrou na água.
            Porque já tinha sentido aquele impacto, já não podia dizer que o mar não existia. Tentou pisar para fora, mas o corpo não queria. Amanhecia em algum lugar em que ela devia estar com alguém, lembrava de ter marcado um compromisso. Pensou no que talvez teria depois da água, depois do escuro, depois da velha, depois de todas as partes dela, depois de tudo.
            Atravessou a água e percebeu que depois já não existia mais nada.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

7º andar, o sol quase nascendo
e tudo aquietava
e tudo acendia
e eu sentia
por deus - eu sentia
que meu corpo
escorria pela varanda
escorria como se derretesse
e ah! eu juro
derretia.

destituído de mim pingava
um plic-plac absurdo
forte rítmico surdo
mesmo
e sentia
sentia que derretia
como se fosse nada
como se fosse tudo
porque tudo aquietava
porque tudo acendia.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Azulado

era sempre assim:
ele deitava
de lado, meio suado
e sorria.

Então virava 
- o rosto e a boca -
sorria e me encarava
com o olhar
azulado
azul de lado.

piscava então as
pestanas
e o azul invadia meu peito
que sorria.

pingado
o céu destituía de cor.
anil, índigo, perolado
tudo nascia daquele olho
azul entretanto quente
azul entretanto feliz
e o meu peito apertado no compasso
do olhar que virava, azulado:
azul, de lado.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

murmúrios incontrolados
e um céu azul de cortinas floridas,
um abismo em cada olhar.

tetos altos de prédios
jamais vistos
e a inquietude da vertigem,
um ponto em cada pedestre lá embaixo.

mais janelas que portas
espantosamente lacradas
escondendo segredos
encobrindo medos,
teu rosto em cada vitrine
dessa maldita cidade.


nevoeiros interpeiam entre
confusas tempestades
de solidão

um rastro de fumaça
aponta a trilha
pro teu coração.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Substitutos

1

inoportuno e indissolúvel:
ninguém duvidará do amargo da minha língua
quando ouvirem como te expulsei
da minha vida.
sorrateiro como uma cobra
armei a emboscada, dei o bote
joguei o que restou de você em outro
pra que tentasse te recuperar de mim.

2

é noite, mas não tarde
e as pessoas me notam
veem que ando sozinho, mesmo
que acompanhado.
vejo todos de longe e,
por não conseguir ouvir suas vozes,
imagino-os arrulhando como pombos noturnos.
todos eles, pombos nacionais e estrangeiros.

3

sento na beira e toco meus pés na água
busco reflexos, miragens, fantasias,
nada.
alguma coisa passou e eu não senti
não vi não me importei
sou o menino mais sozinho do mundo inteiro.
deito no píer porque minhas costas doem
e no alto vejo um garoto bonito apoiado na beirada
de uma nuvem gorda recortada no céu escuro:
ele acena sorrindo e por reflexo
aceno de volta.

4

há um zumbido tão esquisito aqui
imagino que esta seja a voz do mar
(e não o marolear, como a maioria acredita)
percebo num instante que tudo é familiar
ainda que nunca tenha vindo aqui de corpo e mente
sou o menino mais sozinho do mundo inteiro.

5

ninguém é insubstituível.