A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.
Vê agora a importância que a noite tem nas coisas? Consegue sentir agora como ela te afeta? As estrelas já não iluminam tanto, embora essa lua em câncer tenha seu brilho. Radical, mexe com a psique dos homens de um jeito, mexe com a das mulheres de outro. Como fico eu, que não sou nem um e nem outro?
Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
Pálido de espanto me demoro, bebo a luz da lua que acalma e também incendeia. Entende agora como isso funciona? Certo não ouviu o que a noite te diz ainda. Uivos, lamúrias, gemidos e silêncios gritantes estupidamente projetados – o som da noite te chama.
Quando anoitece por aqui
E as gotas remanescentes de chuva
Começam a cair dos galhos
Eu me lembro com mais força daquele dia
Aquele em que choveu o céu sob nossas cabeças
E eu te protegi sob o meu abraço
Mesmo menor, mesmo mais fraco.
Eu sequei tuas lágrimas
Enquanto te aquecia com meu coração.
Chove, chove, chove e eu mais uma vez te pergunto: entende o que estamos fazendo aqui? Noite dia, yin yang, doze horas fatais que marcam a metade, o ponto de encontro da penumbra com a claridade. Assinaturas, rasgos, rasuras, danos críticos, já não sei ao certo o que faço. Procuro incessantemente essa luz que escapa e, sem nunca conseguir, te faço sombra.
Quero você aqui enquanto minha própria natureza permitir, e então amanhã, ou quarta, ou daqui um mês, quando a lua me acordar durante a noite e eu perceber que você já não é mais o mesmo (e nem eu, por ventura) te dar um beijo e sumir. Quero me permitir virar um emaranhado de pensamentos na tua cabeça, e que você fique confuso entre beijos e flechas e desenhos animados. Fique confuso sobre quem eu fui de verdade enquanto dormi com você.
É idiota então te dizer que o que te falta é poesia? Sussurro teu nome em névoa e a escuridão te personifica. Vira e mexe anda pela casa, fala sobre o seu dia enquanto lavo a louça, dança tango comigo pela sala enquanto procura uma taça de vinho. Te imploro! Veja a noite nas coisas, sinta o quanto ela te transforma. Espero ansioso pela tua resposta.
Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.
Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.
Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.
Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.
Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.
Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.
Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.
Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.
O que é exatamente meu, o que é exatamente teu? Possuir já não faz sentido, estamos todos tocados, trocados, malditos. Involuntariamente protegidos, porque a noite, embora mãe, também castiga os aflitos.
A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão...
Beijar porque era momento, porque nossas almas estavam condenadas desde o nascimento e o beijo nos concedia a redenção. Vê agora como doeu essa separação? Da mistura que fomos, já não diviso onde começo e onde você termina. Partes malformadas, iluminadas pela vergonha de ser. Pra que noite tua droga te leva? Em que escuridão teu álibi se encerra? Já sinto a tua noite morrer.
7º andar, o sol quase nascendo
e tudo aquietava
e tudo acendia
e eu sentia
por deus - eu sentia
que meu corpo
escorria pela varanda
escorria como se derretesse
e ah! eu juro
derretia.
destituído de mim pingava
um plic-plac absurdo
forte rítmico surdo
mesmo
e sentia
sentia que derretia
como se fosse nada
como se fosse tudo
porque tudo aquietava
porque tudo acendia.
Já chega, eu sinto que amanhecemos. Cada vez mais dia e menos noite, entendo tua ânsia de partir. Preservo tua memória tal qual Caixa de Pandora e evito lançar novamente todas as mazelas no mundo. Noites permeadas de pensamentos, pontinhos de solidão num mar revolto de indagações. Onde foi parar o marinheiro?
Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
E o sangue que escorre é doce, de tão necessário
Para colorir tuas pálidas faces aurora.
Amanhecemos, findamos, já sinto que podemos dormir.


