Foi dormir pensando mais uma vez em como tudo poderia ter sido diferente, se soubesse antes o que sabe hoje. Pensando em todas as oportunidades que poderia ter de corrigir velhos erros, de reinventar a si mesmo. Em chances novas com velhas pessoas que hoje não passavam de estranhos. Pensava, claro, em todas as coisas e pessoas que tinha hoje, mas estava convicto em sua imaginação que conseguiria chegar no mesmo lugar, sem as partes ruins. Colocou a cabeça no travesseiro e dormiu pensando em todas as primeiras experiências que teve nos últimos dez anos, e como seria bom tê-las novamente.
Quando acordou, percebeu que estava em um ônibus. Um pouco desconfortável, parecia que viajava há horas, esticou-se no seu lugar e absorveu o ambiente. Sua irmã estava ao seu lado, sua mãe do outro, depois do minúsculo corredor. Percebeu como as duas estavam jovens: a primeira vários quilos mais magra, a pele mais queimada do sol impiedoso de uma cidade do oeste paranaense, as sardas mais proeminentes. A segunda dormia tranquila: uma manta vermelho-brega cobria seu corpo e segurava uma mochila no colo como se sua vida dependesse disso. Talvez dependesse.
Olhou para janela, por cima da irmã que ainda dormia, e viu que a estrada aos poucos se fechava em uma ponte. Havia muita água em seguida, era a sua segunda primeira vez vendo o mar! Embora desejasse muito, percebeu que a sensação não era a mesma da primeira primeira vez. Tentava ao máximo possível se agarrar àquela sensação primeira, mas ela se esvaía como areia na mão. Um pouco frustrado, fixou-se no próprio reflexo pálido na janela embaçada.
O primeiro pensamento que teve foi sobre como a camisa que usava era feia. Jesus, teria queimado se a tivesse ainda hoje (ou daqui a dez anos). Em seguida, reparou nas feições do rosto e como estavam diferentes. A pele parecia mais macia, as olheiras estavam menos pronunciadas, o rosto mais fino e sem um pelo de barba. O cabelo tinha um corte diferente, a orelha nunca tinha sido furada. Olhou para os braços e comprovou a inexistência das tatuagens que gostava tanto, e que levara tanto tempo para sequer considerar fazer uma.
Foi acordado dos seus devaneios pela voz do motorista que avisava que já eram 8h30 da manhã de um bonito dia de verão. Fazia 30ºC e daria praia. O letreiro na saída dizia que o ano era 2010. Percebeu que a mãe e a irmã também acordavam, ambas como uma cara de sono terrível, mas igualmente empolgadas em chegar. Ainda um pouco confuso, levantou-se e ajudou as duas a pegarem as coisas que traziam no maleiro. Desceu pensando nos 14 pares de óculos que tinha em casa quando dormiu e agora não tinha nenhum. Faziam falta.
Saiu do ônibus agradecendo o motorista e esperando as malas do compartimento inferior, lembrando-se rapidamente que traziam vinte e sete caixas na mudança - pagaram taxa extra por isso. Lembrou-se de como tinha sentido vergonha ao chegar na rodoviária de uma cidade nova para uma vida nova e trazendo uma bagagem tão velha. Vergonha da mãe que parecia não entender como a vida de um adolescente poderia ser prejudicada ao ser visto naquela situação por pessoas que não o conheciam. Pensou que agora não teria a vergonha da primeira vez, já que já tinha vivido isso antes - assim como ver o mar. Mas teve vergonha de novo como se fosse a primeira vez.
Enquanto a mãe sumia por dentro da rodoviária, buscando um carrinho que pudesse levar toda aquela bagagem, ficou de olho nas caixas e na irmã. De uma distância confortável, de uma forma que poderia proteger os cacarecos todos se precisasse, mas sem anunciar a todos que passavam que sim, eram seus. Como se as roupas interioranas e o corte de cabelo de jeca não denunciasse a posse na hora.
Ainda esperando a mãe, começou a ter lembranças do futuro.
Lembrou-se das quatro primeiras casas em que morarão. Do primeiro emprego com carteira assinada que terá. Das caminhadas noturnas pela praia. Do cursinho pré-vestibular que fará mais uma vez, da graduação e dos amigos que conhecerá lá. Das ressacas que suportará até aprender a beber. Como numa foto montagem, lembrou de todos os amores que um dia teria, fixando-se no último com saudade. Lembrou-se dos seus gatos que o esperarão todos os dias quando saísse para trabalhar. Lembrou das escolas e dos alunos que terá, da aula que já tinha preparado para o dia seguinte. Lembrou dos pratos que um dia gostará de cozinhar e de tantas coisas que assistirá na tevê e que agora precisava esperar que fossem lançadas.
A mãe voltava com o carrinho e com o novo padrasto que tinha tirado o dia de folga para buscá-los. Enquanto ajudava a arrumar as caixas o mais rápido possível (para sair de lá o mais rápido possível), pensou como não lembrava de nenhum número da mega-sena, já que nunca jogava. Consolou-se ao pensar que sabia muito sobre o futuro: poderia fazer investimentos em negócios que sabia que tinham dado certo. Poderia entrar em outra graduação, preferencialmente algum emprego que pagasse melhor.
À medida que saíam da área de embarque, os pensamentos e as lembranças começaram a se confundir. Olhou para a irmã e lembrou que tinham brigado, mas não sabia por que. Olhou para o padrasto e sentiu uma raiva que parecia deslocada, depois de tanto tempo. Olhou para a mãe e a imagem dela careca em um hospital teimava em aparecer em sua mente, embora não soubesse ao certo a circunstância. Não conseguia lembrar de mais nada.
Num suspiro, percebeu que não valia a pena se estressar pelo que um dia foi e agora não seria mais. Levantou a cabeça e sorriu, pensando no futuro bonito que poderia ter na cidade nova, mesmo que cometesse alguns velhos erros. Marchou feliz em direção ao estacionamento da rodoviária e foi atropelado por um Gran Siena amarelo-táxi. Sua última memória sobre o futuro foi que a Uber só chegaria no Brasil em 2014.
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