Quem sou eu

Bru.no: (nominativo masculino singular de primeira declinação) do latim, aquele que só arruma confusão.

sábado, 26 de abril de 2025

Ver a noite nas coisas

A noite desceu. Que noite!

Já não enxergo meus irmãos. 

E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.


Vê agora a importância que a noite tem nas coisas? Consegue sentir agora como ela te afeta? As estrelas já não iluminam tanto, embora essa lua em câncer tenha seu brilho. Radical, mexe com a psique dos homens de um jeito, mexe com a das mulheres de outro. Como fico eu, que não sou nem um e nem outro?

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto...


Pálido de espanto me demoro, bebo a luz da lua que acalma e também incendeia. Entende agora como isso funciona? Certo não ouviu o que a noite te diz ainda. Uivos, lamúrias, gemidos e silêncios gritantes estupidamente projetados – o som da noite te chama.

Quando anoitece por aqui

E as gotas remanescentes de chuva

Começam a cair dos galhos

Eu me lembro com mais força daquele dia

Aquele em que choveu o céu sob nossas cabeças

E eu te protegi sob o meu abraço

Mesmo menor, mesmo mais fraco.

Eu sequei tuas lágrimas

Enquanto te aquecia com meu coração.


Chove, chove, chove e eu mais uma vez te pergunto: entende o que estamos fazendo aqui? Noite dia, yin yang, doze horas fatais que marcam a metade, o ponto de encontro da penumbra com a claridade. Assinaturas, rasgos, rasuras, danos críticos, já não sei ao certo o que faço. Procuro incessantemente essa luz que escapa e, sem nunca conseguir, te faço sombra.


Quero você aqui enquanto minha própria natureza permitir, e então amanhã, ou quarta, ou daqui um mês, quando a lua me acordar durante a noite e eu perceber que você já não é mais o mesmo (e nem eu, por ventura) te dar um beijo e sumir. Quero me permitir virar um emaranhado de pensamentos na tua cabeça, e que você fique confuso entre beijos e flechas e desenhos animados. Fique confuso sobre quem eu fui de verdade enquanto dormi com você.


É idiota então te dizer que o que te falta é poesia? Sussurro teu nome em névoa e a escuridão te personifica. Vira e mexe anda pela casa, fala sobre o seu dia enquanto lavo a louça, dança tango comigo pela sala enquanto procura uma taça de vinho. Te imploro! Veja a noite nas coisas, sinta o quanto ela te transforma. Espero ansioso pela tua resposta.


Alta noite, lua quieta,

muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta

não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.

O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,

não necessita de sono.

Andar...Perder o seu passo

na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,

nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente

Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,

anda por andar - somente.

Não necessita de nada.


O que é exatamente meu, o que é exatamente teu? Possuir já não faz sentido, estamos todos tocados, trocados, malditos. Involuntariamente protegidos, porque a noite, embora mãe, também castiga os aflitos.


A noite anoiteceu tudo...

O mundo não tem remédio...

Os suicidas tinham razão...


Beijar porque era momento, porque nossas almas estavam condenadas desde o nascimento e o beijo nos concedia a redenção. Vê agora como doeu essa separação? Da mistura que fomos, já não diviso onde começo e onde você termina. Partes malformadas, iluminadas pela vergonha de ser. Pra que noite tua droga te leva? Em que escuridão teu álibi se encerra? Já sinto a tua noite morrer.


7º andar, o sol quase nascendo

e tudo aquietava

e tudo acendia

e eu sentia

por deus - eu sentia

que meu corpo

escorria pela varanda

escorria como se derretesse

e ah! eu juro

derretia.


destituído de mim pingava

um plic-plac absurdo

forte rítmico surdo

mesmo

e sentia

sentia que derretia

como se fosse nada

como se fosse tudo

porque tudo aquietava

porque tudo acendia.



Já chega, eu sinto que amanhecemos. Cada vez mais dia e menos noite, entendo tua ânsia de partir. Preservo tua memória tal qual Caixa de Pandora e evito lançar novamente todas as mazelas no mundo. Noites permeadas de pensamentos, pontinhos de solidão num mar revolto de indagações. Onde foi parar o marinheiro?


Havemos de amanhecer.

O mundo se tinge com as tintas da antemanhã

E o sangue que escorre é doce, de tão necessário

Para colorir tuas pálidas faces aurora.


Amanhecemos, findamos, já sinto que podemos dormir.


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