Na volta para casa ele continuava falando. Falou pela manhã, quando acordou, falou durante a tarde por mensagens de via única. Falou quando chegou, final da tarde, depois do lanche e antes da academia. Falou também durante o jantar, enquanto comia as batatas que eu deixava de lado. Não falou no cinema, afinal é um homem educado, mas falou em dobro na volta. Falou sobre o filme, sobre a vida, sobre o dia dele. Falou sobre viagens que planejava sozinho, sobre percepções do filme que teve sozinho, sobre como era bom voltar junto.
Continuava falando quando
chegamos na rua, no prédio, cumprimentamos o porteiro, abrimos as portas.
Falava enquanto se olhava no espelho do elevador, agora tão magro e esbelto e
autocentrado e mais confiante e o cabelo como está bonito e a pele como está
boa e todas essas coisas sobre ele que ele falava já há tanto tempo e que não
deixava espaço pra outrem. Falava ainda, quando marchou direto para a sacada
para fumar umdoistrês cigarros e beber umaduastrês taças de vinho antes de
dormir. Falava enquanto eu alimentava os gatos, limpava as caixinhas de areia,
tirava a roupa pesada do corpo. Falava mais quando entrei pro banho e a fala virou
ruído branco, entre as paredes brancas e o teto branco e o shampoo branco.
Falava enquanto minha cabeça rodava, o box pequeno quebrava e água ia para
todos os lados. Falava enquanto eu caía, enquanto o sangue ralo escorria pelos
azulejos e formava um fio que passava por debaixo da porta. Falava e não ouvia
o pedido de socorro que vinha de dias. Não conseguia prestar atenção em mais
nada enquanto falava.
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