Quem sou eu

Bru.no: (nominativo masculino singular de primeira declinação) do latim, aquele que só arruma confusão.

sábado, 11 de abril de 2020

10 de abril de 2020


Página em branco, garota, estamos aqui de novo. Sem subterfúgios dessa vez, só nós dois. Talvez um quarto vazio, algumas teias de aranha nos cantos e um pouco de poeira pelo chão. A janela tá quebrada, acho que sempre esteve, mas ainda funciona de alguma forma. Dá pra sentir cheiro de panquecas vindo lá de fora e talvez algumas reclamações por barulho. No mais, a casa está bem silenciosa – acho que tem estado bem silenciosa nos últimos dias.
Pensa num espelho, bem grande. Ocupa quase um lado inteiro do quarto e tá um pouco sujo, desgastado nas pontas, quebrado no canto superior esquerdo bem do lado da mancha que parece a cabeça da Manoela. O jogo é o seguinte: você faz alguma coisa, um movimento, um sorriso, uma dança, uma crise eu tento repetir de dentro do espelho e vice-versa. Parece um pouco caótico, sem dúvida vai rolar um paradoxo muito louco, mas tenho fé que vai funcionar.
Agora do teu lado eu vejo um primeiro oi (ok, essa é fácil); tem um monte de gente aqui, a gente tá tão excitado por começar a faculdade e eu senti que a gente sobrou um pouco. Os amigos são ruidosos demais, interessantes demais, felizes demais e eu sentia que a gente tava meio perdido. Mas não durou muito, você mostrou o caminho aqui eu mostrei o caminho ali e a gente se perdeu, inevitável, mas nunca estivemos tão certos.
Beleza, agora você tá se maquiando, nós vamos sair. Jesus, eu nunca bebi, eu não sei não sabia talvez ainda não saiba beber, mas e daí? Estamos juntos, estamos ansiosos e estamos prontos pra nos estragar. Percebo um esforço seu tão grande e eu não consigo acompanhar, me perdoa. Eu aprendi muito com você nesses dias, mas só fui me tocar depois de muito tempo, depois Dela, depois Dele, depois do turbilhão todo. Você estava lá e continuamos, apesar do que tenha sido. Noites viradas, roupas novas, bêbados chorando o tempo todo, muitos beijos rolando em muita gente, grupos de pessoas, festas de aniversário na praia, sapatões maldosas, viados talvez insensíveis demais, o mapa do teu coração na minha mão. A gente cresce, não parece, mas são uns sete anos agora. Eu nem sei onde foi parar esses anos todos.
Vamos lá, terceiro ato: você esfrega os olhos, alguma coisa machuca, o vestido rasgou, deus eu queria um ombro agora. Não consigo acompanhar, sempre achei suas crises piores do que as minhas. Deve ser por isso que sempre te achei mais forte do que eu. Hoje percebo como suicídio aos 25 sempre foi uma promessa do que não fazer, e não o óbvio. Talvez um pouco de drama, mas nunca fez mal pra ninguém. Misericórdia quantas jurupingas foram bebidas nesse terceiro ato. Juro que quando lembro do gosto, meus dedos do pé encolhem e o gosto não é ruim, não mesmo. Mas eu lembro dos porres e olha, não foram bonitos. Lembro de ter escrito um poema sobre a queda (ok, foi pra algum macho que eu lembro o nome e o gosto da boca, mas não vem ao caso) e meio que funcionou também pro que a gente tava sentindo. Foi nesse terceiro ato também que eu mais escrevi, e escrevi muita coisa pra você. Espero do fundo do coração que tenha servido pra alguma coisa – você sempre foi minha maior fã e não sei se expressei gratidão o suficiente.
De repente eu vejo você indo pro canto do quarto, mais pra onde tá borrado. Não consigo ver direito, atrás de uma sombra e imagino que você também não consiga me ver. Não sei quem foi pro canto primeiro, na verdade, e não sei quem repetiu o movimento, não importa. Tanto na cabeça, parecia que a gente tinha acordado. Do nada a faculdade começou a bater com mais força, do nada a família começou a cobrar mais, do nada as coisas tomaram outras proporções. Mas eu sentia tanto orgulho de te ver borrada ali pelo canto do espelho. Apesar de todos os pesares, crises e problemas, você tava vivendo. Você conheceu um monte de gente nova e entrou num processo de autoconhecimento que confesso, me assustou. Você mudou, já não era a Taylor Swift de quinze anos de quando a gente tinha se conhecido. Tava numa mutação sapatão, funk e o caralho e olha, crescida. Eu ainda via, vejo, a Taylor Swift de quinze anos insegura e triste quando me procura pra desabafar e eu vejo que a gente ainda tá ali, vai estar deus sabe até quando.
No último movimento eu tenho certeza que começo. Te abraço bem forte, do jeito que eu consigo. Tá amanhecendo, um doido bêbado pergunta se a gente quer tirar uma foto assim, na beira da lagoa, já que somos um casal tão lindo. A gente e olha, ri um pouco, estamos cansados de virar a noite e só agradece dizendo que não precisa. Acho que a crise que veio depois disso foi minha, mas posso te pedir pra parar nesse momento? O céu tá se iluminando, a gente escuta um pouco de movimento na rua e tudo parece tão melancólico e tão certo que eu não quero continuar. Três meses se passaram, estamos naquela grama ainda, naquele mesmo minuto e então é teu aniversário. Quem diria?
Quero te desejar toda a alegria do mundo, toda a melancolia também, desde que tenha álcool. Quero te lembrar que embora atrasado sempre, além sempre, eu me importo muito e eu te amo muito. Você é a primeira pessoa que vem na minha mente quando eu penso em casa, quando eu preciso ser uma garotinha de quinze anos. Você é a melhor pessoa da minha vida e dona de 51% do meu coração. Te amo com tudo.

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