Quem sou eu

Bru.no: (nominativo masculino singular de primeira declinação) do latim, aquele que só arruma confusão.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020


O sol quase raiando e a aquela espera interminável de algo que não sabia ao certo se viria. Já estivemos aqui antes, pensou assustada. Já te esperei outras vezes nesse mesmo banco, embora a memória teimasse em escapar sempre que parecia lembrar do rosto dele, como se alguma força maior estivesse brincando de gato e rato com ela. Não sabia exatamente que horas eram, mas sabia que estava muito próximo do fim de alguma coisa importante que não devia ser deixada para trás. No mar que se estendia a frente, calmaria. Não era possível detectar o ponto de colisão entre o céu e o mar, tudo estava tão escuro! Ela estava escura, iluminada apenas pelo cigarro aceso entre os lábios – quase um vagalume, era certo. Num olhar de relance sobre o corpo, percebeu que vestia inteiramente branco, muito embora não usasse roupa alguma.  Pensou no que tinha depois da água.
Um pigarro a assustou. Vinha de muito perto e ao mesmo tempo muito longe, meio que como uma voz conhecida que ecoa de algum lugar e nos enche de um surto de saudosismo fanático. Fechou os olhos e entendeu que ela estava do seu lado: a Outra (pois claramente era uma mulher) tinha vindo de muito longe e se mostrava cansada, era velha tão velha meu deus, existia desde que o mundo surgiu. Usava branco também, da cabeça a ponta da saia, mas trazia os pés descalços. Fumava um cigarro longo de palha, parecia nunca ter fim e não tinha mesmo. Bebia de uma garrafa escura que não era nunca possível atestar a quantidade e, embora tivesse pouco, nunca acabava. A Outra sentou. A perna direita batia sempre no chão, parecia querer provar que existia e pediu senta aqui e a primeira sentou. Pensou no que tinha depois da água, depois do escuro.
Era bem capaz que o círculo que se formou ao seu redor não fosse fruto de sua imaginação, previa. Vultos muito claros rodavam em volta, não sabia ao certo a direção: as vezes direita, as vezes esquerda. As vezes muito grandes, as vezes pequeninos. Algumas vezes tinham uma noção muito clara de estar fora do círculo, outras pareciam estar dentro dela. Radiavam luz, iluminavam o chão e as árvores e a maré que rebentava. Então a Outra pigarreou mais uma vez.
Olhando para frente, percebia que a Outra também era muito clara, radiante de uma melancolia que confortava, inspirava paz. Guiada por ela, colocou as duas mãos nas pernas da Outra, abertas para cima. A mão esquerda sobre a perna direita esquentou muito, parecia que havia fogo embaixo. Quase podia sentir o cheiro da carne queimando. Perdida em divagações, demorou uns instantes pra perceber que a velha falava novamente. Uma fala baixa e cheia de quem já viveu muito, de quem um dia já carregou o mundo todo nas costas. Quem era Atlas perto dessa mulher? Um pouco impaciente, a velha repetiu a pergunta pela terceira vez: “cê tá ouvindo o mar?”
A Primeira estava ouvindo sim. Abriu a boca pra responder e percebeu que não conseguia, já não podia mais. Mas ouvia, sim, o mar cantando, chamando, implorando. Uma voz de mãe, calma como um lago, poderosa como um rio. De repente sentiu que todos os seus barcos estavam atracados ali. Imaginava o que teria depois da água, depois do escuro, depois da velha ao lado.
            A Outra pigarreou de novo, indicou com a cabeça pra outra direção. Do outro lado tinham mais 4 dela e fazia sentido. Nunca tinha sido mais do que cinco, entretanto nunca fora menos do que uma. Todas as quatro estavam ali, também estavam perdidas. O eco do oceano chamava a todas, convidava a conhecer mais de perto.
            A Velha pigarreou pela última vez. A perna já não batia mais no chão e o cigarro tinha apagado. Entregou uma rosa branca para a Primeira e disse pra não ter medo. Iansã mexia nas folhas das árvores com uma suavidade enorme e a mãe chamava, sempre chamou, desde que nasceu, como não tinha escutado antes? Pisou no mar e tudo fez sentido: toda dor, todo riso, toda perda, cada filho que tinha ido. Pensou no que teria depois da água, depois do escuro, depois da velha, depois das cinco partes dela.
            Olhou para trás e não tinha mais nada. Achou que tivesse vislumbrado um negro forte e bonito montado num arco-íris, mas talvez estivesse alucinando. Vezenquando a mente prega peças na gente. Entrou na água.
            Porque já tinha sentido aquele impacto, já não podia dizer que o mar não existia. Tentou pisar para fora, mas o corpo não queria. Amanhecia em algum lugar em que ela devia estar com alguém, lembrava de ter marcado um compromisso. Pensou no que talvez teria depois da água, depois do escuro, depois da velha, depois de todas as partes dela, depois de tudo.
            Atravessou a água e percebeu que depois já não existia mais nada.

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