Quem sou eu

Bru.no: (nominativo masculino singular de primeira declinação) do latim, aquele que só arruma confusão.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

os sábios falam em magia
e teimam em feitiços
poções
simpatias
ensinam a conjurar fogo
transformar metal em ouro
iludir reis
curar doenças
e com um toque de mãos
controlar qualquer mente

pobres coitados
não chegam nem perto do poder
que irradia
das tuas íris verde-maresia.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Quebranto

Foi quebranto, desses sabe? mais como um sonho acordado. Suspirava todas as falácias do mundo no meu ouvido como se este fosse nada além de depósito praquelas besteiras tão eruditas. E resfolegava, meu deus como resfolegava pra continuar falando mais e mais e mais. No dito pelo não dito, já havia sussurrado todas as verdades do mundo no fundo do meu tímpano esquerdo, matado minhas fantasias de criança e dissecado a esperança do que seria meu futuro de intrépido viajante de terra nenhuma. Pan! Berrou como se tivesse despertado daquele sonho mais maluco de todos os dias, e gancho voava janela afora rindo da última trapalhada. No breu da madrugada, duas luzes: vermelhas, pulsantes como um coração, ligadas uma à outra por um fio fino, quase invisível feito de algo que jamais esteve ali. As pessoas se ligam por solidão, não por amor. 
Rasco, trasco, frasco. Maldito jogo de rima que não funciona. "Trasco nem existe de verdade". "Claro que existe, trasco poderia ser o nome de uma garrafa quebrada, sabe? daquelas que usam em filmes como arma". "Poderia, mas não é". A conversa parou por cinquenta minutos. Encaramos o quarto, as roupas jogadas no chão, o lençol salpicado de porra, sangue e lágrima. Tocava Calcanhoto, mas não conhecia a letra. Ele disse "amor". E ao invés de responder com uma rima eu respondi "oi?". O mais fatal dos erros é a imaginação de algo que nunca existiu na verdade.
Ele levantou, jogou a camiseta puída e a calça rasgada em cima do corpo magro e pelado - "sem cuecas limpas hoje, desculpe", "tudo bem, você sempre acaba pelado mesmo". Parou na porta quando sussurrei fica. Olhou pra trás e teve pena. O fio partiu.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

e então milagrosamente o silêncio
como se todo esse torpor
me impedisse de te ouvir,
                            te sentir.
éramos ainda crus, amor!
tentando dar certo no que começou errado
todos os caminhos levam ao fim
e nós escolhemos o mais rápido.

Já nem te conheço mais
e o gosto da tua boca já deve ser outro
(e de outro)
mas ainda me pego pensando o que teria sido
imaginando qual seria o caminho
se não tivesse ido.

Porra, está frio.
Faz 35ºC lá fora e eu sinto frio
porque tudo não passa de memórias amargas.
O fantasma do teu sorriso ainda me assombra
às vezes,
e eu não sei se é bom ou ruim.
é triste esse fantasma do teu sorriso
porque sei que ainda não morreu
habita os contornos da tua boca
                              quando ri das piadas do outro
                              quando olha pro outro.
seria melhor se tivesse morrido!
só não morre porque te transformo em literatura
                                (ruim)
                                    todos os dias.

sábado, 26 de setembro de 2015

Por mais dolorido que seja
sofrer um acidente e quebrar vários ossos,
a lembrança que fica é a da pele
ardendo ao raspar o asfalto.

Por mais dolorido que seja
cair e torcer o pé,
a única lembrança que fica é a da vergonha
de ter caído.

Por mais traumatizante que seja
sofrer um assalto,
a lembrança que dói mais é a dor
de ter perdido alguém por causa de dinheiro.

Por mais angustiante que seja,
ver um filho escolher o seu caminho,
o que dói mais é saber que não era o caminho
certo a percorrer.
E ainda assim não poder fazer nada.

Por mais que seja difícil uma gestação,
a única lembrança que fica
são os carinhos e os presentes
que se ganha.

Por mais dolorido e traumatizante que seja
um parto, a única lembrança que fica é
o alívio ao ver um filho
nascer perfeito e com saúde.

Por mais antiga que seja
a convivência com a mãe ainda pensamos,
mesmo depois de velhos,
como era bom voltar pra casa e abraçá-la.

- Mamãe (embora ela não saiba que encontrei esse poema).

domingo, 6 de setembro de 2015

Tem dias em que minha poesia só sai através de socos, lágrimas e grunhidos imitando alguma música triste. Assumo que são meus versos mais bonitos.

domingo, 23 de agosto de 2015

Mutualismo romântico

Já passava das duas da manhã e o álcool já pesava minhas pálpebras cansadas. Só pensava em ir embora, tomar um banho e dormir em alguma cama que não era a minha porque não iria pra casa mesmo. Arrastava como um chaveiro um garoto à tiracolo, que dividia minha atenção com os meus amigos bêbados e chorosos. Desses descartáveis, sabe? Não por achar que ele realmente era, estava implícito no olhar. Todas as suas ações diziam: "sou teu hoje, depois me esqueça até a próxima festa". Então tocou aquela maldita música lenta que falava em lugares longínquos e em sobre ter perdido alguma coisa que unia duas pessoas e rolou um momento. Deu pra sentir o feeling, sabe? Eu lembro de ter dito "amo essa música", e dele ter repetido "amo essa música" quase no mesmo momento, então sorrimos um pro outro e começamos a dançar. Minhas mãos nos ombros dele, as mãos dele na minha cintura, o contato visual perfeito. Aí eu fechei os olhos e me vi em outro lugar. Na minha mente, estávamos numa formatura, ambos vestidos com um smoking preto bonito, com vários outros casais dançando no mesmo passo ao nosso redor. Era assim: um passo pra lá, um passo pra cá, repete. Na minha imaginação havia um globo grande refletindo mil pequenas luzes numa pista de dança espaçosa e ele não era ele. Ele era você. Alguns centímetros mais alto, alguns quilos mais pesado. A barba mais cerrada, as mãos mais fortes e experientes e o sussurro no ouvido mais sacana. Na minha imaginação nós dançamos assim por horas (eu e você, não eu e ele), cantando baixinho aquela música com os olhos bem fechados e procurando realmente saber onde foi que perdemos aquilo que deixava a gente junto. 


A música acabou três minutos depois e eu me obriguei a abrir os olhos, mesmo sabendo que provocaria uma inundação de lágrimas assim que o fizesse. Ele olhava pra mim com os olhos um pouco molhados também e eu me perguntei com quem ele havia fantasiado. Isso é sobre pessoas que usam umas as outras procurando um pouquinho de amor. Pode parecer egoísta, mas na verdade é um exemplo perfeito do mutualismo biológico natural: ambos se beneficiam por momentos, o prejuízo vem depois, na solidão.

Digo isso porque sinto sua falta. Não é fácil amar sem ter alguém pra isso. É como descarregar um pouco de amor em cada indivíduo que aparece, mesmo que não seja o certo, só pra não transbordar aqui dentro por medo das consequências. Eu sinto sua falta e não posso admitir isso pra você. Já é difícil admitir isso pra mim.

Eu me pergunto em quem ele pensou enquanto dançava aquela maldita música lenta comigo e desejo, do fundo do meu coração, que a história deles tenha um final mais bonito do que a nossa.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

São 5:08 a.m.
e eu sinto que te devo desculpas
olho pro teto do meu quarto
e só vejo teu rosto
deus, eu te devo desculpas
e você merece mais do que isso,
mas me desculpe

sexta-feira, 24 de julho de 2015

leio teus poemas mais antigos
na esperança de te encontrar
mas só te perco mais
entrelinhas tão misteriosas
te descubro como outro

te leio e descubro o que pensa
o que te faz bem
e o que não faz
descubro que meu nome está
nas duas listas

te procuro mais fundo
como se teu passado escrito
fosse uma caça ao tesouro
onde foi que te perdi,
se nunca soltei tua mão?

sobre desejos realizáveis:
encontro um desenho teu em prosa
do que seria teu príncipe encantado
percebo o quanto somos diferentes
                                                 (eu e ele)
e ao mesmo tempo tão parecidos

vejo tuas viagens narradas
em versos decassílabos perfeitos
tateio os rostos daqueles que você encontrou
como se tuas letras fossem um tipo
estranho e mágico de braile

pra que fotografias
quando tenho tuas palavras tão perfeitas?
fui do Rio à Pequin
sem sair da minha poltrona
tuas memórias são melhores que um avião

essa é a última estrofe, amor
e eu ainda não te encontrei

terça-feira, 26 de maio de 2015

VII

quando anoitece por aqui
e as gotas remanescentes de chuva
começam a cair dos galhos
eu me lembro com mais força
daquele dia
aquele em que choveu o céu
sobre nossas cabeças
e eu te protegi sob meu abraço
mesmo menor, mesmo mais fraco,
eu sequei tuas lágrimas e te
aqueci com meu coração.

Você podia não saber mas,
naquele momento,
meu coração já tinha escolhido te aquecer
pro resto da vida.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Carta do Futuro nº3

 Data:24 de abril de 2045.
 Anexo: Esse girassol florido.

<Assunto> Oi filho, é a mamãe.
Sei que você deve se perguntar o que eu escrevo todas as vezes em que você me visita. Bom, é isso. Te escrevi dúzias de cartas, algumas pro seu irmão também, e (admito) algumas pra sua irmã na esperança que um dia ela as leia, onde quer que esteja. Filho, não tenho muito tempo, nós dois sabemos disso. Estava tentando deixar alguma coisa pro seu futuro, que servisse pra alguma coisa, e então pensei em como seria mandar uma carta pra você há trinta anos atrás. Espero que tenha chegado a tempo.

Filho, queria que você visse como as coisas são agora, ficaria extasiado. Você mora numa ilha pequenininha, com um sobrado lindo e um farol. Tem uma plantação de girassóis e uma família maravilhosa. Você sempre foi apaixonado por ilhas e faróis e sobrados e girassóis e por amor. Eu fico muito feliz por saber que um dia você teve tudo que sempre amou. Meu Deus, você tem a Alice e o P., e eu não poderia sequer ter imaginado anjos melhores pra sua vida do que esses dois. Ainda não acredito que tenha me dado uma neta na verdade (confesso que nunca esperei isso de você, com alguma razão), e ela é linda. Tem uma aura que faz com que todos se apaixonem por ela, é inevitável. Talvez seja o cabelo ruivo, as sardas proeminentes o nariz arrebitado. Talvez seja aquele sorriso perfeito ou o modo como parece se importar com todo mundo. Ela é uma menininha maravilhosa, e eu sei que você sabe disso. Ou saberá um dia. Acredita em mim, um dia você vai estufar o peito em orgulho todas as vezes que disserem o quanto ela é parecida contigo e com o P. É engraçado ver, na verdade, o modo como seus olhos enchem de lágrimas todas as vezes que nossa menininha experimenta um vestido novo. Dá pra ver que você a ama mais que a própria alma.
Fico feliz por você ter o P. também. Eu me encho de orgulho ao ver o que você fez por ele, o que os dois fizeram por vocês mesmos. Caralho, vocês passaram por tanta coisa sozinhos! (Sim, eu falo caralho, acostume-se) Realmente admiro o trabalho de vocês.

Eu sinto falta da gente, B. Sei que nunca disse isso, mas sinto falta de ser uma família com vocês. Seu irmão entra em contato raras vezes, sua irmã pôs os pés no mundo e gostou de ser viajante (e eu sempre achei que quem tivesse alma de cigana era você), seu padrasto decidiu sair um dia e nunca mais voltou, e nós sobramos. Você arrumou sua família e seu pedacinho de céu naquela ilha. Eu observo vocês de longe com satisfação. 

Eu não sei porque estou escrevendo. Se por desabafo ou carência. Ou agradecimento. Você passa mais tempo comigo do que em casa ultimamente e eu sou muito grata por não me deixar morrer sozinha, nessa vila de gente velha. Sou grata por me pagar uma "babá" em tempo integral e por estar aqui. Você lê seus livros pra mim e compra meus remédios. Me conta piadas e traz Alice me ver sempre que possível. Você dorme aqui, nessa poltrona do lado da minha cama, e na maior parte das vezes sou eu quem vela teu sono, e não o contrário. Só digo isso pra saber que eu realmente tenho orgulho de quem você é, e do apreço que tem por mim.

Filho, eu estou morrendo. Em trinta anos a expectativa de vida dos seres humanos já diminuiu um pouquinho; o ar está sujo, a água está escassa, as doenças estão mais perigosas. Parece que o fim está chegando, ou talvez essa velha esteja sendo melodramática demais, mas ainda é gostoso viver. Eu poderia te dizer muita coisa. Como nossa vida fluiu depois de um tempo depois do teu, como as coisas aconteceram, porque nosso país mudou de nome, mas acho que isso seria estragar a surpresa. Não se conta o final de um bom livro logo no começo, perde-se a graça, e eu não quero que você perca a vontade pela sua própria história. Acredita em mim quando digo que ela é bonita e que vai valer muito a pena. 

É estranho pensar que aqui eu estou me despedindo pra sempre de você, enquanto aí teremos mais 30 anos juntos. É muita confusão pra minha cabeça. 

Um beijo, e aproveita o girassol.
Com amor,

Mamãe.