Foi quebranto, desses sabe? mais como um sonho acordado. Suspirava todas as falácias do mundo no meu ouvido como se este fosse nada além de depósito praquelas besteiras tão eruditas. E resfolegava, meu deus como resfolegava pra continuar falando mais e mais e mais. No dito pelo não dito, já havia sussurrado todas as verdades do mundo no fundo do meu tímpano esquerdo, matado minhas fantasias de criança e dissecado a esperança do que seria meu futuro de intrépido viajante de terra nenhuma. Pan! Berrou como se tivesse despertado daquele sonho mais maluco de todos os dias, e gancho voava janela afora rindo da última trapalhada. No breu da madrugada, duas luzes: vermelhas, pulsantes como um coração, ligadas uma à outra por um fio fino, quase invisível feito de algo que jamais esteve ali. As pessoas se ligam por solidão, não por amor.
Rasco, trasco, frasco. Maldito jogo de rima que não funciona. "Trasco nem existe de verdade". "Claro que existe, trasco poderia ser o nome de uma garrafa quebrada, sabe? daquelas que usam em filmes como arma". "Poderia, mas não é". A conversa parou por cinquenta minutos. Encaramos o quarto, as roupas jogadas no chão, o lençol salpicado de porra, sangue e lágrima. Tocava Calcanhoto, mas não conhecia a letra. Ele disse "amor". E ao invés de responder com uma rima eu respondi "oi?". O mais fatal dos erros é a imaginação de algo que nunca existiu na verdade.
Ele levantou, jogou a camiseta puída e a calça rasgada em cima do corpo magro e pelado - "sem cuecas limpas hoje, desculpe", "tudo bem, você sempre acaba pelado mesmo". Parou na porta quando sussurrei fica. Olhou pra trás e teve pena. O fio partiu.
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