Data:24 de abril de 2045.
Anexo: Esse girassol florido.
Sei que você deve se perguntar o que eu escrevo todas as vezes em que você me visita. Bom, é isso. Te escrevi dúzias de cartas, algumas pro seu irmão também, e (admito) algumas pra sua irmã na esperança que um dia ela as leia, onde quer que esteja. Filho, não tenho muito tempo, nós dois sabemos disso. Estava tentando deixar alguma coisa pro seu futuro, que servisse pra alguma coisa, e então pensei em como seria mandar uma carta pra você há trinta anos atrás. Espero que tenha chegado a tempo.
Filho, queria que você visse como as coisas são agora, ficaria extasiado. Você mora numa ilha pequenininha, com um sobrado lindo e um farol. Tem uma plantação de girassóis e uma família maravilhosa. Você sempre foi apaixonado por ilhas e faróis e sobrados e girassóis e por amor. Eu fico muito feliz por saber que um dia você teve tudo que sempre amou. Meu Deus, você tem a Alice e o P., e eu não poderia sequer ter imaginado anjos melhores pra sua vida do que esses dois. Ainda não acredito que tenha me dado uma neta na verdade (confesso que nunca esperei isso de você, com alguma razão), e ela é linda. Tem uma aura que faz com que todos se apaixonem por ela, é inevitável. Talvez seja o cabelo ruivo, as sardas proeminentes o nariz arrebitado. Talvez seja aquele sorriso perfeito ou o modo como parece se importar com todo mundo. Ela é uma menininha maravilhosa, e eu sei que você sabe disso. Ou saberá um dia. Acredita em mim, um dia você vai estufar o peito em orgulho todas as vezes que disserem o quanto ela é parecida contigo e com o P. É engraçado ver, na verdade, o modo como seus olhos enchem de lágrimas todas as vezes que nossa menininha experimenta um vestido novo. Dá pra ver que você a ama mais que a própria alma.
Fico feliz por você ter o P. também. Eu me encho de orgulho ao ver o que você fez por ele, o que os dois fizeram por vocês mesmos. Caralho, vocês passaram por tanta coisa sozinhos! (Sim, eu falo caralho, acostume-se) Realmente admiro o trabalho de vocês.
Eu sinto falta da gente, B. Sei que nunca disse isso, mas sinto falta de ser uma família com vocês. Seu irmão entra em contato raras vezes, sua irmã pôs os pés no mundo e gostou de ser viajante (e eu sempre achei que quem tivesse alma de cigana era você), seu padrasto decidiu sair um dia e nunca mais voltou, e nós sobramos. Você arrumou sua família e seu pedacinho de céu naquela ilha. Eu observo vocês de longe com satisfação.
Eu não sei porque estou escrevendo. Se por desabafo ou carência. Ou agradecimento. Você passa mais tempo comigo do que em casa ultimamente e eu sou muito grata por não me deixar morrer sozinha, nessa vila de gente velha. Sou grata por me pagar uma "babá" em tempo integral e por estar aqui. Você lê seus livros pra mim e compra meus remédios. Me conta piadas e traz Alice me ver sempre que possível. Você dorme aqui, nessa poltrona do lado da minha cama, e na maior parte das vezes sou eu quem vela teu sono, e não o contrário. Só digo isso pra saber que eu realmente tenho orgulho de quem você é, e do apreço que tem por mim.
Filho, eu estou morrendo. Em trinta anos a expectativa de vida dos seres humanos já diminuiu um pouquinho; o ar está sujo, a água está escassa, as doenças estão mais perigosas. Parece que o fim está chegando, ou talvez essa velha esteja sendo melodramática demais, mas ainda é gostoso viver. Eu poderia te dizer muita coisa. Como nossa vida fluiu depois de um tempo depois do teu, como as coisas aconteceram, porque nosso país mudou de nome, mas acho que isso seria estragar a surpresa. Não se conta o final de um bom livro logo no começo, perde-se a graça, e eu não quero que você perca a vontade pela sua própria história. Acredita em mim quando digo que ela é bonita e que vai valer muito a pena.
É estranho pensar que aqui eu estou me despedindo pra sempre de você, enquanto aí teremos mais 30 anos juntos. É muita confusão pra minha cabeça.
Um beijo, e aproveita o girassol.
Com amor,
Mamãe.

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