"Desculpa, está tarde." Não sabia se ele estava pedindo desculpa por ter se atrasado ou por ter marcado o encontro já tarde da noite, só sei que estava, e isso que importava. Deixei as desculpas se misturarem com a fumaça do meu cigarro de menta antes de pegá-las. "Não importa" eu disse, e esperei. Ele esperou também. O cigarro acabou e o coração dele desacelerou da corrida pra chegar até ali. "Como você está?" eu perguntei olhando pra ele com o canto dos olhos. Ele disse que estava bem. Eu esperei mais um pouco e ele esperou também.
Eu desejei um café, embora devesse estar dormindo pra trabalhar amanhã. Pensei em como as coisas acontecem do jeito que não deviam acontecer. Segurei a mão dele. Ficamos algum tempo assim, não sei dizer quanto: existem esses momentos em que o tempo simplesmente não importa, em que podem ter passado alguns minutos ou três dias sem percebermos. Simplesmente acontece do tempo passar a ser espaço, e o espaço passar a ser tempo.
Eu acendi outro cigarro e ofereci um a ele. Fumamos juntos.
É realmente uma droga ser do tipo quieto, do tipo que não grita. Eu tinha tanta coisa pra dizer, tanta raiva trancada dentro de mim que poderia jorrar todo um novo glossário de palavrões nele. Mas eu não podia, porque não era assim, então eu esperei. E ele esperou também.
Minha carteira de cigarros tinha acabado e meu bom senso começou a apertar: não resolveria nada estar ali, e eu realmente tinha que trabalhar amanhã; tinha contas pra pagar e negócios pra resolver. A verdade mais doída é que não se vive de amor (muito menos do desamor que eu tinha). Levantei.
Ele me olhou um tempo, a boca entreaberta esperando uma solução ou um beijo. Talvez os dois. Eu esperei. Ele disse "desculpa, já é tarde", e eu não sabia se estava se desculpando por ter marcado esse encontro tão tarde da noite ou por ter demorado a se desculpar, mas não fazia diferença, não importava mais. Eu disse isso e fui embora, caminhando nos meus passos largos e lentos.
Ele gritou "você ainda coleciona estrelas?", e muita coisa passou na minha cabeça. Lembrei de nós dois deitados na grama naquele mesmo lugar, numa noite mais feliz, dando nomes extravagantes às estrelas. Lembro de que ele havia batizado uma com meu nome, e eu me segurei pra não lhe dizer que aquele era um avião. Ou talvez ele soubesse e quisesse fazer graça. Não importava, então eu fingi pegá-la e guardá-la no bolso, dizendo que estava fazendo uma nova coleção. Ele sabia que eu amava coleções.
"Você ainda coleciona estrelas?" reverberou no meu ouvido. Eu sorri sem me virar e continuei meu caminho, mas ah!, devia ter dito. Devia ter me virado e dito o que eu queria. É uma droga ser do tipo que esconde as frases (e os sentimentos) mais bonitos.
"Colecionar teu amor foi bem mais divertido".
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