Já passava das duas da manhã e o álcool já pesava minhas pálpebras cansadas. Só pensava em ir embora, tomar um banho e dormir em alguma cama que não era a minha porque não iria pra casa mesmo. Arrastava como um chaveiro um garoto à tiracolo, que dividia minha atenção com os meus amigos bêbados e chorosos. Desses descartáveis, sabe? Não por achar que ele realmente era, estava implícito no olhar. Todas as suas ações diziam: "sou teu hoje, depois me esqueça até a próxima festa". Então tocou aquela maldita música lenta que falava em lugares longínquos e em sobre ter perdido alguma coisa que unia duas pessoas e rolou um momento. Deu pra sentir o feeling, sabe? Eu lembro de ter dito "amo essa música", e dele ter repetido "amo essa música" quase no mesmo momento, então sorrimos um pro outro e começamos a dançar. Minhas mãos nos ombros dele, as mãos dele na minha cintura, o contato visual perfeito. Aí eu fechei os olhos e me vi em outro lugar. Na minha mente, estávamos numa formatura, ambos vestidos com um smoking preto bonito, com vários outros casais dançando no mesmo passo ao nosso redor. Era assim: um passo pra lá, um passo pra cá, repete. Na minha imaginação havia um globo grande refletindo mil pequenas luzes numa pista de dança espaçosa e ele não era ele. Ele era você. Alguns centímetros mais alto, alguns quilos mais pesado. A barba mais cerrada, as mãos mais fortes e experientes e o sussurro no ouvido mais sacana. Na minha imaginação nós dançamos assim por horas (eu e você, não eu e ele), cantando baixinho aquela música com os olhos bem fechados e procurando realmente saber onde foi que perdemos aquilo que deixava a gente junto.
Digo isso porque sinto sua falta. Não é fácil amar sem ter alguém pra isso. É como descarregar um pouco de amor em cada indivíduo que aparece, mesmo que não seja o certo, só pra não transbordar aqui dentro por medo das consequências. Eu sinto sua falta e não posso admitir isso pra você. Já é difícil admitir isso pra mim.
Eu me pergunto em quem ele pensou enquanto dançava aquela maldita música lenta comigo e desejo, do fundo do meu coração, que a história deles tenha um final mais bonito do que a nossa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário