VESTIDA DE SOL
DESCIA PÁLIDA AO
ABISMO MORTAL
Ela
tinha uma pele bonita, dominada exclusivamente pelo ébano perfeito, e marcada
pelas tatuagens espiraladas que desciam dos ombros ao peito do pé. Sorria,
assim, com uns dentes brancos totalmente invejáveis, fazendo-me crer que o
paraíso existia, e que seu sorriso era uma das portas mais fáceis pra se chegar
até lá. Seu cabelo, mais preto do que a noite mais escura, descia pelos ombros
e pescoço, cacheados e sedosos, como se tivessem sido alisados por anjos. Era
da minha altura, mas tinha uma aura tão forte que parecia uma giganta. Tinha a
capacidade sobre humana de olhar de cima para qualquer pessoa, mas não de modo
ruim. Era só seu jeito. Tanto que a chamava de Luísa do queixo-erguido. Ela
tinha um Piercing de argola no nariz perfeito e outro na boca, em cima dos
dentes da frente. Seus olhos, incisivos e fugazes, eram ainda mais negros que
seus cabelos, e traziam a dureza da criação a que fora submetida. Carregava um
pingente de meio coração no pescoço, como prova de que seu coração pertencia a
alguém, de alguma forma. Luísa estava, naquele dia, vestida de sol: um vestido
amarelo florido caía-lhe leve e fluído pelo corpo forte e combinava com seu
bracelete. Nos cabelos, uma coroa feita com os mais bonitos girassóis que já vi
em toda minha vida, e nos pés calçava a grama que pisava, como na música.
Luísa, no entanto, era uma ilusão. Sua vida não passava de um sonho de um
garoto bobo de quase vinte anos, que acordava nos domingos de manhã pra tomar
sorvete e assistir desenhos bobos. Antes que o sonho acabasse e seu mundo todo
se dissolvesse em bruma no mar, Luísa me olhou com os olhos esbugalhados e
entoou:
A
NOITE ANOITECEU TUDO,
OS
SUICIDAS TINHAM RAZÃO:
O
MUNDO NÃO TEM MAIS JEITO.
Luísa estava pálida, e pálida se dirigiu ao penhasco em
prantos. “Não pertenço a esse lugar, B. Nem a lugar nenhum. Não tive infância e
não terei velhice, porque minha vida toda se resume ao tempo que durar o
cochilo de um garoto bobo de dezenove anos que acorda nas manhãs de domingo pra
tomar sorvete e assistir desenhos bobos. Pra que prolongar?”
Luísa estava com medo, e com medo se jogou no abismo
mortal.
...
Seu
grito em queda livre foi o que me despertou. Meu coração doía de saudade e
pesar por aquela a qual a morte se apressara em buscar. Levei a mão ao peito e
senti algo ali. Era um pingente de meio coração, como prova de que meu coração
pertencia a alguém, de alguma forma.
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