Quem sou eu

Bru.no: (nominativo masculino singular de primeira declinação) do latim, aquele que só arruma confusão.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Luísa

VESTIDA DE SOL
DESCIA PÁLIDA AO
ABISMO MORTAL

Ela tinha uma pele bonita, dominada exclusivamente pelo ébano perfeito, e marcada pelas tatuagens espiraladas que desciam dos ombros ao peito do pé. Sorria, assim, com uns dentes brancos totalmente invejáveis, fazendo-me crer que o paraíso existia, e que seu sorriso era uma das portas mais fáceis pra se chegar até lá. Seu cabelo, mais preto do que a noite mais escura, descia pelos ombros e pescoço, cacheados e sedosos, como se tivessem sido alisados por anjos. Era da minha altura, mas tinha uma aura tão forte que parecia uma giganta. Tinha a capacidade sobre humana de olhar de cima para qualquer pessoa, mas não de modo ruim. Era só seu jeito. Tanto que a chamava de Luísa do queixo-erguido. Ela tinha um Piercing de argola no nariz perfeito e outro na boca, em cima dos dentes da frente. Seus olhos, incisivos e fugazes, eram ainda mais negros que seus cabelos, e traziam a dureza da criação a que fora submetida. Carregava um pingente de meio coração no pescoço, como prova de que seu coração pertencia a alguém, de alguma forma. Luísa estava, naquele dia, vestida de sol: um vestido amarelo florido caía-lhe leve e fluído pelo corpo forte e combinava com seu bracelete. Nos cabelos, uma coroa feita com os mais bonitos girassóis que já vi em toda minha vida, e nos pés calçava a grama que pisava, como na música. Luísa, no entanto, era uma ilusão. Sua vida não passava de um sonho de um garoto bobo de quase vinte anos, que acordava nos domingos de manhã pra tomar sorvete e assistir desenhos bobos. Antes que o sonho acabasse e seu mundo todo se dissolvesse em bruma no mar, Luísa me olhou com os olhos esbugalhados e entoou:

A NOITE ANOITECEU TUDO,
OS SUICIDAS TINHAM RAZÃO:
O MUNDO NÃO TEM MAIS JEITO.

            Luísa estava pálida, e pálida se dirigiu ao penhasco em prantos. “Não pertenço a esse lugar, B. Nem a lugar nenhum. Não tive infância e não terei velhice, porque minha vida toda se resume ao tempo que durar o cochilo de um garoto bobo de dezenove anos que acorda nas manhãs de domingo pra tomar sorvete e assistir desenhos bobos. Pra que prolongar?”
            Luísa estava com medo, e com medo se jogou no abismo mortal.

...


Seu grito em queda livre foi o que me despertou. Meu coração doía de saudade e pesar por aquela a qual a morte se apressara em buscar. Levei a mão ao peito e senti algo ali. Era um pingente de meio coração, como prova de que meu coração pertencia a alguém, de alguma forma.

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