Oi papai.
Sou eu, sua filha Alice. Primeiro deixa eu te situar: estamos no ano de 2034, e tudo está um pouco diferente por aqui, então não se assuste. Eu não entendi porque o P. pediu pra que eu escrevesse essa carta, já que nesse momento vocês estão lá fora tocando umas músicas antigas que eu não conheço no seu violão, mas ele me explicou que a carta é pra você um pouco mais novo, numa época que a gente não se conhecia ainda. Bom, é meio difícil pra mim, mas vou tentar por você. Você e P. me conheceram num orfanato. Vocês faziam trabalho voluntário com as crianças e nós três meio que nos apaixonamos ao mesmo tempo. Vocês estavam juntos há algum tempo, então decidiram se casar e construir uma casa juntos para que pudessem me adotar, o que foi bem legal. Aliás, nossa casa é linda: moramos numa ilhota (bem pequena mesmo), num sobradinho que é a coisa mais linda do mundo! Temos algumas árvores no quintal, um poço de água potável e uma horta onde plantamos quase tudo que comemos. Ah, temos um pequeno canteiro de girassóis também. Eles são lindos, e eu sei que você gosta deles porque quase todo dia você senta perto do canteiro e os cuida. Conversa com eles, às vezes canta, e sempre chora nesses momentos. Eu te respeito por isso, você deve ter passado por muita coisa. O nosso sobradinho era branco quando nos mudamos, mas decidimos pintá-lo todo de amarelo e ele ficou mil vezes mais bonito. Queria ter te anexado uma foto, mas estamos sem filme pra câmera no momento.
Queria que você me conhecesse melhor, então tenta imaginar: Eu sou ruiva, tenho muitas sardas no rosto e sou meio baixinha e magrela. Tenho 11 anos. Uso óculos redondos, porque as lentes de contato machucam um pouco e eu não consigo me acostumar a elas. E tenho sempre um vestido novo porque P. adora costurá-los para mim. Ah, um barco passa na nossa ilhota todos os dias às oito da manhã e me leva pra escola no continente, e me traz de volta ao meio dia. Eu estudava em casa com você e com o P., já que os dois são professores, mas vocês acharam que já era hora de eu conhecer o mundo por mim mesma. Vocês são ótimos pais, e eu realmente não poderia ter pedido melhores.
P. me disse que um dos principais motivos pra te escrever essa carta é que você precisa da nossa ajuda. Parece que as coisas não estão indo muito certas pra você no momento, e que ter uma ideia de como vai ser seu futuro te ajudaria. Então aguenta, porque eu e o P. valemos a pena. Nosso sobradinho amarelo na nossa ilhota, nossos girassóis e nossos pés de alface valem a pena. Você repete isso muitas vezes hoje. Não esquece disso.
Ah, antes que eu esqueça: tem uma história muito bonita que você lê pra mim as vezes que se chama Alice dos Pés-de-Vento e Morgana do Sorriso-de-Fada. Você me disse uns dias atrás que ama meu nome, e que foi a maior das coincidências que tivesse escolhido ser meu pai antes mesmo de saber que era esse meu nome. Por isso somos uma família tão especial, é o que você diz. Então não esquece de escrever essa história pra ler pra mim daqui vinte anos.
Estou ficando sem luz papai (água e luz são meio escassas aqui hoje, então aproveitamos o máximo e economizamos o que podemos), e meus dedos estão doendo um pouco de tanto escrever. Então não esquece: Valemos muito a pena. Eu te amo, e o P. também ama, você sabe disso. Então vê se aguenta aí uns dias ruins porque tudo vai dar certo e tudo vai mudar.
Com amor,
Sua Filha, Alice dos Pés de Vento.
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